Por si só, um cemitério gera grandes riscos de contaminação ambiental. No caso do que está alagado no distrito rural de Uvaia, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, a preocupação deve ser maior ainda.
O local foi atingido pela cheia do Rio Tibagi e começou a ficar submerso no dia 1º de novembro. Segundo a prefeitura, há pelo menos 324 túmulos no espaço.
Como pode ocorrer a contaminação?
Sandro Xavier de Campos é químico e possui doutorado na área de saneamento. De acordo com ele, os perigos são relacionados aos materiais utilizados na estrutura dos caixões, que incluem metais pesados, e à decomposição dos cadáveres.
Neste processo, é produzido um líquido chamado de necrochorume, que possui bactérias, vírus e fungos diversos.
Com o alagamento, todos esses resíduos podem estar se espalhando na água da inundação, que atinge casas, poços e o próprio rio, e também pelo solo, que por estar molhado perde a capacidade de fazer o processo natural de descontaminação e absorção.
"O fato de o solo estar molhado devido ao alagamento faz com que fique mais fácil esses resíduos se infiltrarem até lençóis freáticos e se espalharem em rios e até poços artesianos. O que estava concentrado vai sendo diluído tanto pela terra, quanto pela água", alerta o especialista.
Por isso, Campos destaca a importância de moradores não ingerirem água de poços artesianos da região sem uma análise técnica prévia.
Outra recomendação é que, após o fim da enchente, sejam feitas pesquisas e estudos sobre a qualidade e possível contaminação da água do rio e dos solos da região.
"Na década de 1970 houve muitos casos de doenças como a febre tifoide em Paris e Londres devido à contaminação causada por cemitérios. No Brasil, a legislação acerca da localização e estrutura desses espaços começou a endurecer em 2003", ressalta o especialista.
Necrochorume
Sandro Campos ressalta que cada quilograma do corpo de um ser humano libera até 600 ml de necrochorume. Ou seja, cada cadáver gera uma média de 30 a 50 litros do líquido.
Nele, há bactérias, vírus e fungos provenientes tanto do processo natural de decomposição do corpo, quanto de doenças que acometeram as pessoas em vida.
"Na época da pandemia, a possível contaminação da Covid-19 por cadáveres foi uma grande preocupação de pesquisadores", lembra.
Outro risco de contaminação relativo a cadáveres são produtos usados para a conservação deles, como metanol e formol, que são substâncias altamente tóxicas, diz o químico.
Ao mesmo tempo, caixões podem liberar metais pesados com o passar do tempo, como chumbo, zinco, cobre, entre outros.
"No caso de cemitérios pequenos, o risco é maior porque a concentração é muito alta. Em espaços maiores há uma diluição", alerta.

Fonte: G1 PR
AbdallahNews