O produto, proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), continua sendo anunciado e vendido de forma ilegal pelas redes sociais.
A paciente, identificada como Kellen Oliveira Bretas Antunes, começou a usar o medicamento após adquiri-lo como se fosse tirzepatida — substância presente no Mounjaro, remédio aprovado no Brasil para o tratamento do diabetes tipo 2 e também utilizado para emagrecimento. Pouco tempo depois, ela apresentou complicações graves e precisou ser hospitalizada.
A Lipoless não possui registro na Anvisa, o que torna sua comercialização proibida no país. Sem autorização sanitária, não há garantias sobre a composição, a dosagem correta nem sobre as condições de armazenamento e transporte do produto.
Conhecida informalmente como “Mounjaro do Paraguai”, a caneta recebe esse apelido para criar associação com um medicamento regularizado. No entanto, ela é produzida no Paraguai e entra no Brasil de forma clandestina. Desde o ano passado, o produto é proibido no país.
Uma reportagem exibida pelo Jornal Nacional mostrou como funciona o esquema de venda ilegal. Os medicamentos atravessam a fronteira e são transportados por motoboys, repassados a distribuidores e vendidos sem qualquer controle sanitário. Em outras situações, a Polícia Federal já flagrou pessoas tentando entrar no Brasil com os produtos escondidos em veículos ou presos ao corpo.
Especialistas alertam que esse tipo de transporte aumenta ainda mais os riscos à saúde, já que não segue padrões mínimos de segurança e pode comprometer a estabilidade do medicamento.
Diante do aumento da circulação de canetas emagrecedoras irregulares, a Anvisa determinou, na quarta-feira (21), a apreensão e a proibição do medicamento Tirzepatida das marcas Synedica e TG. A medida também vale para o Retatrutida, de todas as marcas e lotes.
Com a decisão, esses produtos não podem ser comercializados, distribuídos, fabricados, importados, divulgados ou utilizados em nenhuma hipótese.
Segundo a agência, os medicamentos foram fabricados por empresas desconhecidas e estão sendo anunciados principalmente por perfis em redes sociais, como o Instagram, sem qualquer registro, notificação ou cadastro junto à Anvisa.
Por se tratarem de produtos irregulares e de origem desconhecida, não há garantia sobre o conteúdo, a concentração da substância ou a qualidade dos medicamentos. A orientação é clara: esses produtos não devem ser utilizados.
A Anvisa orienta que profissionais de saúde e pacientes que identifiquem a venda ou o uso desses medicamentos entrem em contato com a agência pelos canais oficiais ou procurem a Vigilância Sanitária local.
Riscos à saúde e uso sem acompanhamento médico
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, tem patente pertencente à farmacêutica Eli Lilly. No Brasil, essa patente é respeitada, o que impede que outras empresas produzam a substância. No Paraguai, porém, essa proteção não é seguida, permitindo a fabricação e a venda do medicamento.
Segundo especialistas, além da questão legal, o maior risco está na falta de avaliação sanitária. Sem fiscalização adequada, não é possível garantir a segurança do medicamento ou descartar a presença de contaminantes.
“O medicamento precisa cumprir critérios bioquímicos e biológicos rigorosos. Da forma como ele é produzido e distribuído, tudo isso é precariamente fiscalizado”, explica o endocrinologista Rodrigo Lamounier, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
O médico alerta ainda que não existe qualquer monitoramento sobre o que realmente está sendo vendido nem sobre as dosagens aplicadas, o que representa um risco ainda maior quando o uso acontece sem prescrição médica.
Mesmo assim, anúncios nas redes sociais prometem entrega rápida do medicamento importado, com preços que variam de R$ 632 a quase R$ 2 mil, sem exigência de receita médica.
No Brasil, medicamentos aprovados pela Anvisa da classe dos GLP-1 só podem ser vendidos com prescrição, que deve ser retida no momento da compra. O uso sem acompanhamento médico pode trazer consequências graves.
No caso de Kellen, o especialista avalia que o medicamento pode ter desencadeado uma doença que afeta o sistema neurológico. Embora ela pudesse ter alguma predisposição, o uso da substância e a rápida perda de peso teriam funcionado como gatilho.
“As pessoas não podem banalizar o risco desses medicamentos. Quando existe uma condição grave, como a obesidade, o tratamento é feito com acompanhamento e avaliação constante dos riscos e benefícios. Usar sem prescrição é se expor a riscos sem nenhum benefício à saúde”, afirma Lamounier.
Paciente segue internada
Kellen foi internada pela primeira vez no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, no dia 17 do mês passado, com dores abdominais. Ela recebeu alta no dia 25, com suspeita de intoxicação medicamentosa. Dois dias depois, começou a apresentar perda muscular e dificuldade para se levantar ou andar sozinha.
No dia 28 de dezembro, precisou ser internada novamente. Além da fraqueza muscular e da urina escura, desenvolveu insuficiência respiratória e complicações neurológicas. A paciente segue internada em estado grave na capital mineira.
FONTE/CRÉDITOS: G1/ Anvisa
AbdallahNews
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