O paranaense Márcio Aparecido da Cruz Germano da Silva, de Maringá, no norte do Paraná, se tornou o primeiro juiz cego de 1º grau a atuar na Justiça do Trabalho no Brasil, de acordo com o Tribunal Regional do Trabalho do Paraná (TRT-PR).
A trajetória dele é marcada por erros médicos, dificuldades e rejeição no ambiente escolar, passando pela empatia na universidade e pelo poder da representatividade que o fizeram chegar a essa conquista profissional.
Entre as referências do agora juiz, está o desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca. Em 2009, ele se tornou o primeiro magistrado cego do Brasil e atua no Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, no Paraná. Silva conheceu Fonseca durante a graduação e conta que se inspirou na história do profissional.
Aos 44 anos, o magistrado relembrou como foi a trajetória até tomar posse no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, em São Paulo.
Ele conta que, ainda criança, dois erros médicos mudaram a vida dele para sempre.
Aos quatro anos, após a família se mudar para Curitiba, Silva recebeu uma alta dosagem de um medicamento ao qual era alérgico. Como sequela, desenvolveu perda parcial da visão do olho esquerdo.
A família, então, se mudou para Sarandi, cidade ao lado de Maringá. Cerca de quatro anos depois, Silva, ainda criança, perdeu a visão do outro olho.
“Com oito anos, sofro o segundo erro médico por um oftalmologista de Maringá e perco a visão do olho direito, com o qual eu enxergava bem”, relembra.
Expulso da escola
Ao perder totalmente a visão, a escola que frequentava o expulsou sob o argumento de não ter estrutura para ensiná-lo. Silva ficou três anos sem frequentar uma escola.
“Comecei a aprender braile com um amigo da família, o professor Vicente. Quando eu tinha dez anos, fui convidado para estudar na modalidade de ensino integrado em outra escola. Eu só ouvia as aulas regulares pela manhã, pois não tinha cartilha para mim. À tarde, nas aulas de reforço, eu revisava esse conteúdo e escrevia o meu material”, relembra.
Anos depois, Silva ganhou uma bolsa de estudos para fazer um cursinho pré-vestibular em uma instituição privada. Ele conta que nesse momento sofreu os primeiros impactos da desigualdade.
O juiz afirma que a quantidade de horas de estudo na instituição privada era muito maior do que na escola pública de onde veio.
"Ali me deu um certo medo de não conseguir a aprovação no vestibular, pois, apesar da boa vontade do colégio, ele não tinha uma impressora em braile e eles não conseguiram uma parceria para fazer esse material em tempo hábil”, diz.
Após três tentativas, Silva conseguiu a aprovação e se tornou o primeiro aluno com deficiência visual a cursar Direito na Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Injustiças o levaram a escolher o Direito
O magistrado relembra que as situações de injustiças que viveu acabaram colocando o Direito como a única escolha possível.
“Quando sofri o primeiro erro médico, minha família contratou um advogado a quem deveria ser outorgada uma procuração apenas para movimentar o processo, mas ele fez meus pais concederem a ele uma procuração de amplos poderes. Então, tudo que estivesse eventualmente no meu nome, se ele conseguisse um acordo ou qualquer coisa com o médico que cometeu o erro, esse dinheiro ele poderia movimentar livremente. Na sequência, esse advogado desapareceu”, conta.Silva relembra que na graduação, novamente, se deu conta de que seria muito difícil concluir os estudos. Além da dificuldade de acesso a materiais em braile, o tamanho dos livros jurídicos o preocupava.
“Os livros de Direito são muito extensos. O professor ia fazendo aulas expositivas e quando chegava a hora de estudar para a prova, no final do bimestre, eram 300 páginas de leitura em relação às quais eu não tinha acesso. Eu dependia da leitura dos meus amigos”, conta.
O poder da representatividade
Ainda no primeiro ano da graduação, Silva conheceu Ricardo Tadeu, jurista cego que integrava o Ministério Público do Trabalho. Atualmente, Tadeu é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho do Paraná.
“Trabalhar com ele me inspirou e me mostrou que seria possível. Aí eu percebi: ‘Bom, se ele conseguiu alguma forma de chegar até lá, eu também posso’. Sempre me inspirei nisso. Então, apesar das dificuldades, eu sempre via além”, relembra.
Para o juiz, conhecer uma pessoa que também tem uma deficiência atuando na área do Direito foi fundamental para aprender lições valiosas.
O maior aprendizado, destaca, foi que utilizar todas as ferramentas possíveis para trabalhar não tira o mérito das conquistas. Por isso, a pessoa com deficiência não deve sentir medo ou vergonha.
AbdallahNews