O uso de paracetamol durante a gestação voltou ao centro do debate após declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que relacionou o medicamento ao aumento de casos de autismo. Especialistas, no entanto, afirmam que não há provas científicas que sustentem essa associação.
Nesta terça-feira (23), a Comissão Europeia reiterou que não existem evidências que vinculem o uso de paracetamol por gestantes ao risco de transtornos do espectro autista (TEA).
O paracetamol na gestação
O paracetamol é um dos analgésicos e antitérmicos mais usados no mundo. Considerado seguro para grávidas quando utilizado sob orientação médica, é indicado justamente porque gestantes não devem recorrer a anti-inflamatórios não esteroidais, como o ibuprofeno.
Apesar disso, pesquisas vêm avaliando possíveis efeitos do uso do remédio no desenvolvimento fetal. Até agora, nenhum estudo comprovou relação de causa e efeito entre o consumo do paracetamol na gravidez e o risco de autismo.
Nos EUA, o medicamento é comercializado como Tylenol, fabricado pela Kenvue. A farmacêutica reforçou recentemente que “não há base científica” para a associação feita por Trump. O Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia também destacou que estudos anteriores não demonstraram ligação entre o uso adequado do paracetamol e problemas de desenvolvimento fetal. Já no Reino Unido, o Serviço Nacional de Saúde recomenda o paracetamol como a primeira escolha de analgésico para gestantes.
O que se sabe sobre o autismo
O autismo não é uma doença, mas uma condição do desenvolvimento neurológico, conhecida como transtorno do espectro autista (TEA). Os sinais podem variar de atrasos na linguagem e dificuldades sociais a quadros mais leves ou, em alguns casos, deficiência intelectual associada.
O aumento dos diagnósticos nas últimas décadas está relacionado a critérios médicos mais abrangentes e maior procura por avaliação, e não necessariamente a uma maior prevalência da condição. Estudos apontam que fatores genéticos explicam a maior parte dos casos (cerca de 85% a 90%), enquanto o ambiente responde por uma parcela menor.
Pesquisas recentes
Um dos estudos mais amplos sobre o tema foi publicado em 2023 na revista JAMA. Pesquisadores suecos analisaram dados de 2,5 milhões de crianças. Inicialmente, identificaram um pequeno aumento no risco de autismo e TDAH entre filhos de mulheres que usaram paracetamol durante a gestação. Porém, quando compararam irmãos de mesmas mães — o que reduz a influência de fatores genéticos e ambientais —, a associação desapareceu. A conclusão foi que não há evidência de causa e efeito.
Ainda assim, uma revisão publicada em 2025 na revista Environmental Health avaliou 46 estudos e encontrou indícios de associação em parte deles. Contudo, como são pesquisas observacionais e com limitações, os autores não calcularam um risco único e reforçaram que o medicamento segue sendo a opção mais indicada para gestantes, desde que usado na menor dose e pelo menor tempo possível.
Leucovorina e novas abordagens
Trump também defendeu o uso da leucovorina, derivado do ácido fólico já utilizado em alguns tratamentos contra o câncer, como possível terapia para o autismo. A substância, porém, ainda carece de evidências robustas sobre eficácia nesse contexto.
Especialistas destacam que, devido à grande diversidade de manifestações do autismo, é improvável que uma única medicação seja eficaz para todos os casos. Pesquisas seguem em andamento, mas ainda não há consenso sobre tratamentos medicamentosos que possam atuar diretamente nos sintomas principais do TEA.
AbdallahNews
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